Sesc

Conhecer-nos a todos

O processo de colonização europeia empreendido nas Américas caracterizou-se pela expropriação e retalhamento dos territórios habitados, até então, por povos indígenas. Nessa lógica de dominação e divisão espacial, as metrópoles impuseram-se de diferentes formas, erigindo as fronteiras de suas colônias. Não somente físicas, essas demarcações se deram em termos culturais e linguísticos, sendo os idiomas românicos (derivados do latim) aqueles que prevaleceram nos países latino-americanos – enquanto os caribenhos apresentam maior variedade de línguas implantadas.

Um dos efeitos dessa delimitação linguístico-cultural foi a formação de blocos nacionais identificados, mas também distanciados, em função das três principais línguas adotadas nessa região do globo: o espanhol, o português e o francês. Decorre dessa fragmentação, e das diferenças culturais que ela gera, o desafio histórico enfrentado pelos países das Américas do Sul e Central, e também do Caribe, de se perceberem como formações pátrias implicadas numa mesma empresa colonial de caráter extrativista, que legou enormes dificuldades para a consolidação da soberania dessas nações e, assim, para a construção da condição cidadã de suas populações.

Se a América Latina representa, em si mesma, um projeto de reconhecimento mútuo, de união de esforços e de articulação de agendas, sua concepção passa pela desconstrução das barreiras entre os países, inclusive no sentido de se conhecerem mais a fundo. Essa é uma necessidade evidente no Brasil, sobretudo, mas não apenas, em relação a seus vizinhos de língua e tradição hispânicas. Daí que o cinema, com os poderes de suas linguagens e as capacidades de circulação e afetação que detém, contribua de modo significativo para conhecer-nos a todos.

Ao mesmo tempo que as crises e os impedimentos provocados pela pandemia de Covid-19 representam novos desafios a esse projeto geopolítico, eles sugerem soluções aptas a transpô-los, ao menos em parte. É nessa direção que o 15º Festival de Cinema Latino-Americano de São Paulo, em parceria com o Sesc, adapta o seu período de realização e veicula sua programação pelos meios digitais, fazendo com que o cinema produzido nos territórios da Latinoamérica transponha as fronteiras da cidade de São Paulo, chegando a todo o território brasileiro.

Danilo Santos de Miranda
Diretor Regional do Sesc São Paulo